TASCA PIROLITO (11)

SEM TÍTULO


Frustrada com a falta de um café «à lá marquise» e na iminência do fecho, para obras, do único cinema na urbe, o Roletas instalou temporariamente uma parabólica para propaganda de televisão em alta definição. 
Os Espinhenses rejubilam e agradecem reconhecidamente a honra que a sua ditosa cidade teve em ser uma das três eleitas onde tal demonstração está a ser feita. Para já é apenas alta definição. Dentro de pouco tempo será altíssima definição e, no princípio do século XXI, supérrima definição. A partir daí os gramáticos e línguistas ficarão de olhos em bico para poder acompanhar e inventar a terminologia adequada ao progresso tecnológico dos japoneses. 
Entretanto, a Câmara terá de, urgentemente, adquirir uma televisão em alta definição se não quiser perder votos nas próximas eleições. Parabólica já a tem. 
Voltando à vaca fria, a localização da dita parabólica foi obra de mestre. Qual monumento em homenagem a personalidade conspícua, a dita não podia ter sido melhor colocada. Mesmo por cima da entrada nobre do Roletas, virada a sudeste, é, neste momento, a estrela que ilumina e guia as turbas que, descendo a 19 e a 23, se atropelam na messiânica cruzada da busca do Santo Bronze. 
Um pequeno reparo, porém. A parabólica devia ser iluminada à noite por um potente holofote. Ainda está a tempo. A bem dos noctívagos em busca de animação artistico-cultural. 
Entretanto, «a imagem é de ouro» é uma regra que os iminentes locutores televisivos há muito mandaram às urtigas. Em olímpica competição, a sua verborreia tem decididamente contribuído para o anedotário desportivo dos últimos dias. As suas recentes prestações são dignas do Guiness. Geniais. Os irlandeses agradecem. Um senão. Tanta loquacidade não conseguiu ainda contar-nos uma rocambolesca história relacionada com os Jogos Olimpicos de 1936. 
As primeiras Olimpíadas do Povo tinham sido realizadas em 1925, em Frankfurt, e as segundas em 1931, em Viena. Em 1937 seriam em Antuérpia, mas o fascismo galopante de Hitler e Mussolini e a propaganda dos Jogos de Berlim levaram a SASI, —a organização das Olimpíadas do Povo —, a antecipá-las para 1936, em Barcelona. Assim, 4000 atletas de toda a Europa convergiram para Espanha durante a segunda semana de Julho. No dia da abertura das Olimpíadas, Domingo, 19 de Julho, eclodia a Guerra Civil. Apesar dos fascistas de Barcelona terem sido, nos dois dias seguintes, aniquilados pelos Republicanos, era tarde para salvar as Olimpíadas do Povo. Todavia, para assinalar a derrota dos fascistas, os 4000 atletas marcharam para o estádio de Montjuic, onde deveriam ter sido realizados os Jogos. Depois de um improvisado comício, os atletas percorreram as ruas de Barcelona, apinhadas de gente que os aplaudia, e regressaram aos seus países. Com muitas histórias para contar. 
Na altura não havia televisão a cores nem parabólicas. Muito menos televisão de alta definição. Speakeasy Jones.

Octávio Lima
Espinhpo Vareiro, 21 de agosto de 1992