Querida Tia Bizantina,
Nunca em férias me senti tão turista em Espinho. E, talvez por isso mesmo, ande a ver certas coisas de outra maneira. A Prima Alegria, aqui de visita há uma semana, tem ajudado imenso com as suas encantadoras perguntas e observações.
O estacionamento, por exemplo. Por cima dos passeios, fora de mão, em cima de rampas, tapando garagens e outras mais coisas que a Tia pode imaginar. O outro dia desabafei com o vizinho de cima sobre isto. Mas ele lembrou-me, e com razão, que se em Portugal só se pode ter democraticamente férias em Agosto, os polícias támbém tinham esse direito. Aliás, continuou ele, toda esta animação automobilística emprestava outro sabor a Espinho. Espinho parecia mais culta, mais cosmopolita, com todas aquelas matrículas espanholas e francesas em cima dos passeios. Mas o meu vizinho embatucou quando eu lhe perguntei então para que é que a Câmara tinha gasto tanto dinheiro com dois novos parques de estacionamento quando eles não estavam a ser usados e rentabilizados. Ainda por cima feitos tão fora de mão que logo se viu estarem destinados para os de fora. Contrariando o espanto da Prima Alegria perante a poeirada e o ruído das obras na esplanada, o meu vizinho diz que isso até dá um toque de vida ao litoral espinhense, sempre tão parado durante todo o resto do ano, não contando com a feira às segundas feiras, o Cinanima em Novembro, o Festival de Música em Julho... Segundo o meu vizinho, também não era por acaso que só agora se pintava as passadeiras. Tudo para mostrar ao turista que se trabalha em Espinho. Durante três meses.
Do que a Prima Alegria gostou menos até agora foi aquela parte a sul de Espinho, onde vivem os pescadores e os ciganos, lembra-se Tia? Tive que lhe dizer que nunca em seis anos toda aquela área tinha sido limpa como agora. Até já tinham posto corrimãos na ponte de madeira sobre a Ribeira de Silvalde.
A Ribeira é que continua a correr tão porquinha, mas isso é coisa para os políticos e técnicos das Câmaras à volta se entreterem pois há muita lei sobre isso e os peritos ambientalistas já avisaram amiúde.
Demos há pouco um passeio à praia de Paramos. A Prima Alegria teve que usar os novos sanitários que lá foram feitos e quando saiu disse-me que nem nas praias da Florida havia tão jeitosos. Roído de curiosidade, também fui ver e, sim senhor, são um regalo. Nada atrás dos da baía, tirando os chuveiros. Espero que não sejam só para os de fora...
Fomos também passar uma tarde a uma praia mais a sul, antes de Esmoriz. Para chegar lá tivemos que passar por um carreiro, ao lado havia um aeródromo e um rego de água porca que tresandava e ao fim, uma barreira com paus, que, disse-nos um casal, era para não deixar passar carros e jipes para as dunas e para a praia. Bem lembrado!
E é tudo por agora. A Prima Alegria não me larga, sempre a pedir-me para passear. Olhe, Tia Bizantina, por causa dela estou a ver coisas pela primeira vez. Ela está a gostar imenso da nossa comida e diz que se continuar a comer assim que chega aí que nem vai caber no Lincoln.
Um grande abraço do sempre cheio de suadades,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 12 de agosto de 1994