Querida Bizantina,
Desculpe tanto tempo sem lhe escrever. Tem havido muito que fazer, e antes de ir aí passar uns dias, queria deixar os negócios todos em bom andamento. A saúde tem sido boa e espero que consigo também.
Isto por cá, desde que Junho começou, parece que as pessoas saíram da toca e começaram a trabalhar. Por todo o lado se vê pintores a alindar casas e paredes, públicas e privadas. A Câmara mandou o pessoal todo aqui para o quadrado de turismo, como diz a minha querida vizinha D. Viperina. Tem sido um vaivém dos diabos, com tractores a lavrar a praia uma vez por dia, é um pôr e tirar de bancadas de um lado para o outro. Nunca se tinha visto esta gente a trabalhar tanto. As ruas andam agora polidinhas que é um regalo. Pudera, com a areia que o pessoal da Câmara todas as semanas espalha. Os carros passam, travam, arrancam, os varredores varrem a areia para o meio da rua, conclusão: nunca as ruas andaram tão brilhantes. Aqui para nós, até podiam estar melhor se tivessem pintado as passadeiras há muito mais tempo. Isto tudo porque, segundo diz o marido da D. Viperina, tinham andado a pintar a pista do aeródromo e tinham dado cabo da tinta toda. Agora houve reforço, e, à pressão, há que pintar passadeiras nos sítios por onde os turistas hão-de passar.
A respeito de tanto trabalhar, diz o marido da D. Viperina que, por causa do turismo, só se trabalha aqui três ou quatro meses, que até as anedotas dos Alentejanos já passaram de moda. Pois segue-se que a esplanada à beira mar está tão atafulhada— outra palavra nova e difícil que aprendi com a D. Viperina — de palcos, mesas, cadeiras e guarda-sóis, que mal se pode andar. Coitadas das palmeirinhas que foram há pouco tempo plantadas para turista ver. Com tamanha confusão, há tanta gente a calcá-las. Houve um restaurante que mandou fazer uma grade de ferro, pintou-a de branco e pô-la à volta da palmeirinha. Aposto que por este andar vai ser a única que se vai salvar.
E depois, não sei como se pode ter sossego depois do jantar, com tanta música misturada de tantos bares e de tantos palcos, cada qual a ver quem toca mais alto. Mas há quem goste, porque isto está sempre cheio. Vêm carros e jipes de fora, chegam cá e logo saltam pelos passeios, avançam pela esplanada e descem até ao pé da areira sem problemas. As motorizadas até vão direitinhas ao fim do esporão. Isto é que é qualidade de vida. A praia está cada vez mais pequena com tanto painel de publicidade.
A continuar este ritmo, um dia destes só se poderá ver o pôr de sol lá do alto dos terraços dos hóteis. Se a Câmara receber bom dinheiro por tudo isso e o aplicar em coisas úteis para os que cá vivem e trabalham, muito bem. Se for para aplicar em coisas para os de fora gozarem dois ou três meses por ano, não parece certo. Mas este país tem destas coisas a que ainda mal me habituei.
Vou ficar por aqui. A Tia que vá preparando aí o jardim para a gente fazer uns barbecues à maneira, com bailarico no fim. Aquelas vizinhas jeitosas, que a Tia sabe, podem ser convidadas? Um grande abraço para si e recomendações às Primas. Seu Speakeasy Jones.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 11 de agosto de 1995
