Cara Prima Alienação,
Pois é, este ano ainda não tirei férias a sério. É assim que se diz por cá quando ainda não se teve férias de verão a cem por cento. Azar meu, que não saí de Espinho. Por outro lado, como o tempo não tem sido bom, acho que tive sorte. Pode ser que o bom tempo venha quando eu finalmente tiver as minhas ricas férias.
Entretanto, como é a primeira vez que estou cá por esta altura, achei que devias gostar de saber como são as coisas cá no verão. Logo de manhã chegam combóios cheios de pessoas. Quase sempre em grandes grupos, atravessam as ruas, umas aos gritos e com muitos palavrões, outras a atropelarem-se e a correr para ver se ocupam um bom lugar na praia. Ao fim da tarde o movimento é em sentido inverso, mas os gritos, os palavrões e os encontrões são do mesmo estilo. As sacolas também regressam diferentes: vão vazias, porque as latas e as garrafas, as cascas e os plásticos ficaram a empanturrar os caixotes de lixo.
Ainda de manhã cedo, andam os varredores a limpar as ruas mais centrais, aquelas por onde passa mais gente. Também regam os canteiros da 5ª Avenida, perdão, da Rua 19. Fazem isso até ao meio dia. No centro turístico, a varredura é frequente, senão mesmo constante. Diz a minha vizinha D. Viperina que é para não aparecer lixo nas fotografias que os turistas andam a tirar. Parece até mesmo a técnica dos varredores da Disneyland, pelo menos quando lá fui já lá vão uns bons trinta anos.
Quanto mais nos afastamos do centro turístico, mais rara é a varredura, até porque os turistas não frequentam tanto essas paragens. Imagina tu que até num sítio como o Golfe que é muito frequentado por gente selecta, o acesso é uma porcaria cheia de buracos e as valetas andam geralmente cheias de uma água castanha mal cheirosa. Provavelmente não reparam nesses pormenores porque viajam em carrões confortáveis, com ar condicionado e vidros fumados. Entretanto, durante todo o dia o sistema de estacionamento é muito bem organizado. Os parques a pagar estão cheios, os livres mas longe das praias ficam às vezes às moscas. De modo que há um grupo de arrumadores de carros que arrumam com grande eficácia os milhares de carros que diariamente invadem Espinho. Cumprem zelosamente a sua tarefa, por turnos, dividindo as áreas dos quarteirões conforme os arrumadores no activo.
Diz a D. Viperina que tanto profissionalismo só é fruto de intensos estágios por eles frequentados em Madrid, Paris e Atenas com subsídios camarários. O profissionalismo é tal que nem precisam de uniforme, nem de qualquer tipo de identificação para exercerem o seu ofício. Por outro lado, este serviço é o exemplo mais genuino da desburocratização. Imagina tu que não há concursos de concessão de áreas de parquear e não há recibos. Aliás se os passassem, teriam que aplicar o IVA e isso é coisa que não interessa nem a arrumadores nem a automobilistas. Tudo é feito na maior das ordens, bastando apenas meia dúzia de berros dos arrumadores e uma moeda de cem escudos para se ter o carro bem estacionado durante todo o dia. Mesmo em cima do passeio, em cima de curvas, em cima de degraus e de passadeiras, atrás ou à frente de sinais de proibição de estacionamento, contra a mão ou não. A eficácia é total, e o sistema é um puro exemplo de como devia funcionar a verdadeira democracia, mesmo a americana.
(continua no próximo número...
... (continuação)
Sensacional por cá foi, mais uma vez, a bancada gigante que ocupou metade da praia principal e que serviu para as pessoas verem de graça vários jogos de vólei. Era tão grande que não se via nem o mar, nem o pôr do sol. Para além da bancada ser alta, uns insufláveis a fazer de latas gigantes de sumos que ajudaram a tapar as vistas. Por pouco não afogavam um cafezinho instalado no sítio desde o início do verão.
A minha vizinha D. Viperina diz que já não percebe nada. Diz ela que não sabe para que é que a Câmara se gaba de ter a única praia do norte com bandeira azul se afinal deixa metade dela ser ocupada com ferros, plásticos, tábuas, cafés, palcos e não sei que mais. Diz ela que os da Europa, quando deram a bandeira azul inteira, deviam estar a dormir ou distraídos. A D. Viperina pensa que deviam ter dado só meia bandeira azul.
Ela também diz que não sabe porque é que andaram a gastar tanto dinheiro com um pavilhão desportivo enorme para agora, em vez de estar a ser usado, estar fechado. Se o problema era não haver areia no pavilhão, podiam fazer como os espanhóis que transportam areia para onde querem e fazem campeonatos maravilhosos em sítios airosos e que não chocam com banhistas. Podíamos fazer o mesmo, acrescenta ela. Eu não sei que lhe diga. Para além disso estes portugueses às vezes têm uma maneira de ver e de fazer as coisas que é muito peculiar.
Aliás não foi só esta bancada gigante que esteve bem no meio da praia. Parece que quem organizou as coisas este ano não era de cá e só conhecia o centro turístico, de maneira que, não conhecendo mais nenhum outro sítio e na pressa de fazer muita coisa em pouco tempo, concentrou tudo na mesma área. Assim, houve também um enorme palco onde às vezes houve espectáculos. Geralmente com a música muito alta, isto é, de estoirar os ouvidos e esturricar os miolos. Depois houve os bares de praia sem casas de banho e com preços de arrepiar os cabelos, imagina tu que um café é mais caro do que aí! Diz a D. Viperina que não foi ela que lá foi tornar um café porque não sabia como é que as chávenas eram lavadas.
Houve também tendas para promoções de tudo e mais alguma coisa. A última novidade foi atafulharem parte da Brodway, perdão, da Avenida 8 de barracas para instalarem uma feira de artesanato. Enfim, à noite, depois do jantar, já não se podia dar um passeio em paz sem se tropeçar ou acotovelar constantemente alguém. Uma doidice.
Para não falar nos engarrafamentos a toda a hora, especialmente entre as duas e as seis da tarde e as nove e as onze da noite. Mas há quem goste, e ainda bem.
Tem havido grande discussão por causa do clube de futebol local. Então não queres saber que subiu de divisão e, quando a televisão tem que filmar e transmitir o jogo, o clube tem de ir jogar fora em vez de fazer as honras da casa no seu campo de Espinho. Tudo porque ainda não tem iluminação que preste. Diz a D. Viperina que o outro dia se zangou porque numa loja estavam uns homenzinhos a falar mal da situação e a dizer que afinal eles, os comerciantes de cafés e de restaurantes, não iam lucrar nada com a subida de divisão do clube porque quando era para receber as equipas dos clubes importantes para jogos que atraem mais gente e dão mais dinheiro, os milhares de pessoas de fora não vinham para Espinho, iam para a Maia, e a Maia é que ia fazer dinheiro à custa de Espinho. A D. Viperina exaltouse e parece que lhes disse que se eles eram assim tão fans do clube e se realmente tinham tanto interesse comercial, porque é que não se organizavam e juntavam para financiar a tal iluminação. Olha, eles mandaram-na calar, aos berros e aos palavrões, diz a D. Viperina que até saiu a correr envergonhada por ver gente a falar tão mal, passados todos estes anos depois do 25 de Abril. Eu até tive pena dela, coitada!
Pois é, por agora é tudo. Cumprimentos à Tia Bizantina e aos vizinhos. Não demores a escrever. Teu primo que muito te estima,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 30 de agosto e 13 de setembro de 1996