Caro Speakeasy,
Espero que te encontres bem. Eu estou óptima, especialmente depois de um cruzeiro que fiz no Mediterrâneo.
Sim, senhor, eu não acreditava, mas é verdade. Vocês aí na Europa dão um passo e dão logo um pontapé em património antigo. Precisamente ao contrário daqui na América onde se tenta fabricar património a martelo, ano após ano, hora a hora. Olha, o Elvis, um azeiteiro com a cabeça cheia de brilhantina, a casa dele já parece o vosso Santuário de Fátima, com milhares de pessoas, à noite, com velinhas, à volta da estátua dele. Alguns julgam que ele está vivo. E, para a vigarice ser completa, só falta dizer que ele faz milagres. Mas como eu estava a dizer, gostei imenso do cruzeiro no Mediterrâneo. Hei- de contar-te tudo em pormenor um dia que venhas cá.
Para já, digo-te que fiquei admirada com a calma daquele mar, sem ondas. E as noites, com aquela lua cheia que não me deixava dormir e me obrigava a ficar estendida na espreguiçadeira no deck superior do navio, a espraiar a vista pelo imenso mar prateado. A costa é bonita, e navegar por entre todas aquelas ilhas gregas foi um sonho inesquecível.
Atenas foi uma desilusão, tudo cheio de pó, montras mal amanhadas. Roma, achei-a desleixada e suja. Veneza, apesar de velha, teve piada com o barco dos bombeiros na água, a polícia, os taxis, tudo é em cima da água, até mesmo a recolha do lixo. Florença foi o máximo. Aquilo é que é património de se lhe tirar o chapéu. A Sicília também gostei, com praias de areia muito fina e muito monumento barroco e grego, talvez melhor conservados do que na própria Grécia.
A única impressão negativa que tive deste cruzeiro foi de Malta. Não da ilha ém si, que é bonita, com muita igreja e catedral fina, mas das pessoas e dos serviços. São cá uma corja de aldrabões que só visto. Os taxistas são os piores, a pedirem o' dobro do que é razoável. Depois, as empregadas de mesa são porcas. Imagina que nos sentámos numa praça, mesmo em frente a uma catedral, para tomar umas bebidas numa esplanada. A empregada veio, trouxe tudo, mas ficou fula quando lhe pedimos para limpar o oleado que cobria a mesa porque estava muito pegajoso. Ela fez uma fita, que estava tudo bem, e ainda fez pior: derramou um copo de café gelado e por pouco não caía tudo em cima da saia da minha amiga do lado.
Até mesmo os condutores de autocarros são duvidosos em Malta. Eu e a minha amiga decidimos ir sozinhas a St. John's. Pusemo-nos na fila, e quando chegou a nossa vez, eu pedi dois bilhetes e, como não sabia o preço, perguntei quanto era. O condutor, estendendo a mão para a minha mão que estava cheia de trocos, disse: "Quanto tens aí?" Já viste uma coisa destas? Malta, nunca mais, disse a minha amiga que já fez este cruzeiro várias vezes mas nunca tinha ido a tal ilha de tão má memória.
E tu, que tensfeito? Conta-me coisas. Um grande abraço desta Tia que te estima muito,
Bizantina.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 22 de agosto de 1997