Querida Tia Bizantina,
Obrigado pela sua carta. Gostei imenso de saber que estava melhor do que nunca, especialmente depois de um cruzeiro retemperador no Mediterrâneo.
Com que então a Tia detestou Malta por causa da aldrabice dos taxistas e da falta de higiene. Pois olhe que por cá também há muita gente porca. Imagine a Tia que agora Espinho, nesta época de banhos, é visitada por milhares de pessoas. Logo de manhã chegam aos magotes, de comboio, de carro, de autocarro, carregados com sacos e caixas térmicas cheias de comida e bebida. Durante o dia vão chegando. O que é certo é que já antes do meio dia as ruas da frente balnear estão cheias de porcaria, de papéis, de plásticos, etc. Para não falar nos fedorentos cócós dos cães espalhados por lodosos passeios. E é preciso os varredores da Câmara, cujo número foi muito reforçado, estarem constantemente a varrer e a apanhar o lixo que todos estes porcos deitam para o chão. E não é por causa da falta de caixotes de lixo, que os há por todo o lado. É uma questão de malcriação de muita gente.
Diz a minha vizinha D. Viperina que essas pessoas que chegam cá e fazem isso são as mesmas que estacionam os carros em cima dos passeios, das passadeiras, que buzinam por tudo e por nada, que não abrandam junto das passadeiras para deixar passar os peões, que cospem para o chão que urinam atrás dos carros e contra a parede da Piscina, que berram e dizem palavrões quando discutem futebol, o único assunto que parecem conhecer e dominar.
E, por falar em futebol, há uma novidade muito engraçada que a Tia há-de gostar de saber. Não é que Portugal decidiu concorrer a organizar o mundial de futebol daqui a alguns anos! Achei imensa piada, porque eu só tenho visto estes portugueses a lavar roupa suja sobre futebol na televisão, a falar todos ao mesmo tempo, tudo a monte, e agora pensam que são capazes de ser organizados! Dá-me vontade de rir, mas enfim, pode ser que haja um milagre.
Outra novidade que me surpreendeu foi ver os agricultores portugueses, que estão sempre a dizer que estão na miséria, que estão sempre a pedir dinheiro ao governo quando há seca e quando há cheias, mandar para o lixo milhares de toneladas de peras boas. Imagine a Tia que o Governo, via Europa, vai pagar 15 escudos por cada quilo lançado ao lixo. E a fruta tão cara nos mercados. E tanta gente a morrer à fome por esse mundo fora. E consta que houve países do tal Mediterrâneo por onde a Tia andou que tiveram muita pouca ou nenhuma fruta. Eles podiam ter vendido para lá, não acha Tia?
E por falar em crise, ouvi dizer que há para aí uma grande greve numa empresa de distribuição de correio e mercadorias. Ao contrário das greves de cá, que antes de acontecerem apenas durante um dia, são badaladíssimas durante semanas. Aí, fazem poucas greves, mas quando as fazem, fazem-nas a sério. Cá só se ouviu falar dessa greve vinte dias depois dela ter começado. Se tivesse sido um soco dado por um jogador num treinador de futebol, ter-se-ia sabido logo depois.
Fico por aqui. Desejo que continue de boa saúde. Recomende-se às Primas Alienação e Poupança. Cumprimentos ao Sr. Perry e restantes vizinhos e amigos. Diga-lhes que penso muitas vezes neles. Um abraço para todos. O sobrinho que a estima muito,
Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 29 de agosto de 1997