Caro Speakeasy,
Espero que te encontres bem e preparado para o Outono que se aproxima. Tenho estado bem e as coisas têm-me corrido pelo melhor.
Com que então a famosa Lady Di morreu num acidente em Paris, num Mercedes que fugia a alta velocidade de jornalistas de esgoto. Por cá parece que a vida parou para se ouvir e ver os canais de televisão alterarem e interromperem os seus programas habituais para actualizarem em câmara lenta o funeral. Acho que eles vão fazer de Lady Di o que já fizeram do Elvis e do Kennedy e de outros que têm morrido cedo. Vão fazer deles heróis do sistema, heróis que sustentam e perpetuam o esquema. Acho que muito boa gente vai continuar a fazer dinheiro à custa da Diana e da sua morte, e que muita gente que fez e tem feito o que ela fazia nunca é falada.
Se a Diana não queria ser apoquentada por jornalistas não teria vestido a pele de mulher pública nem teria assumido responsabilidades públicas nem sequer atraído as atenções dos media. Não venham agora atribuir as culpas apenas a jornalistas de esgoto que mais não fazem do que arranjar comida para certas camadas sociais se empanturrarem com coisas como a vida privada de certo jet set.
Essa gentinha que corre a comprar jornais e revistas que trazem assuntos de gente privada e se delicia a devorar essa trampa também tem culpa no cartório, porque essa imprensa de esgoto existe porque há ratos de esgoto que gostam dela e não conseguem viver sem isso.
Mudando de assunto, o outro dia, quando andava nas compras, ouvi uma conversa muito interessante entre duas mulheres que caminhavam à minha frente. Não pude deixar de as ouvir porque elas falavam alto e podia-se ouvir tudo. Era sobre um caso de tribunal por causa de um cão de raça e de várias cadelas também de raça. Havia uma senhora que alugara o seu cão de raça e várias cadelas também de raça. Havia uma senhora que alugara o seu cão de raça puríssima para cobrir uma cadela também de raça puríssima. Só que foi à tal quinta na sexta-feira à tarde, deixou o cão e veio embora dizendo que voltava ao fim da tarde de Domingo.
Segue-se que o dono da cadela, finório, servira-se do super cão para cobrir mais algumas cadelas de amigos a quem cobrara 550 dólares, cerca de 100 contos pelo vosso dinheiro, por cada «viagem». Essa tal mulherzinha descobrira a marosca porque voltara à quinta duas horas antes do combinado e vira o seu mui estimado super cão, já todo derreado, a cobrir uma outra cadela que não era aquela que tinha sido combinada. E vai daí, pusera tudo em tribunal, com testemunhas e tudo. Que isto de aproveitar à falsa fé os dotes físicos e genéticos de um super cão é coisa séria nos conturbados tempos que a sociedade americana atravessa.
Fico por aqui na esperança que tudo te corra pelo melhor. Obrigado pela cartinha que me escreveste há dias. Cumprimentos à tua amiga D. Viperina.
A Prima que te estima,
Alienação
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 5 de setembro de 1997