Caro João,
Espero que o João tenha gostado da viagem que fez à Inglaterra— se é que já foi e veio — e agora se sinta melhor para dirigir o sempre irreverente «ESPINHO VAREIRO».
Não sei como é que se deu com a comida aí por Londres, mas eu já sinto bastantes saudades da comida daí de Portugal. Não pelos preços, que aqui são iguais ou até mais baratos, mas pelos temperos e pela maneira de fazer as coisas. Se não fosse a minha Tia Bizantina e a Prima Alienação, que ainda conservam e respeitam as tradições, não sei o que seria de mim. «Hamburgers» e «hot dogs» só em última necessidade. Pizzas ainda lá vai. Também não desgosto os «salad bars» onde se escolhe comida fria para fazer uma salada e se paga conforme o peso que se levar.
Quanto a bebidas estamos mal. Há agora uns sumos novos agradáveis, água mineral já vai aparecendo — da França, imagine o João — cerveja há uma ou duas marcas que se aproveitam, vinhos é uma desgraça. Só da Califórnia, brancos, mais parecem suminhos. Ah que saudades que tenho dos vossos vinhos alentejanos.
Quanto a restaurantes, só se salvam os italianos e os portugueses. Com preços iguais aos daí de Espinho. Olhe, consolei-me com uma lagosta inteira no Souza's de Plimouth. Fomos dar um passeio de barco, a vinte e tal milhas da costa — até se via Boston ao longe — para ver baleias e no regresso entrámos neste restaurante de um português. Lá tivemos que comer, cada um, a sua lagosta. Uma maravilha por 15 dollars, taxa e tudo.
Fui passar o fim de semana passado a Boston. Há quatro anos que não ia lá. Já tém a sua Manhattan, quatro ou cinco blocos— quarteirões como vocês dizem — com aqueles edifícios altos como se vê em New York. Estão também a renovar a zona das docas e agora só há marinas com botes de luxo, dois hóteis de luxo e limosines com chauffeur fardado. Segue-se que fui a um restaurante com a direcção que a Tia Bizantina me tinha dado. O restaurante não tem nome. Aliás é esse mesmo o seu nome, «The no name restaurant». Custou a lá chegar, fica mesmo no meio de uma das docas. Lá comi outra lagosta que foi um consolo.
Bem, por agora é tudo. Espero não ter feito o João roer-se de inveja por causa das minhas lagostas. Sei que é um bom prato e que também cozinha muito bem e se aí houvesse lagosta ao preço da de cá imagino até que deitava abaixo algumas de vez em quando. Passe bem.
Um abraço até à próxima. E recomendações ao NB, ao OL, ao JD, ao Observador Z, ao ROC e outros colaboradores do jornal. Haja Saúde.
Seu, Speakeasy Jones
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 8 de setembro de 1995