Tasca Pirolito (89)


Querida Alienação, 
Obrigado pela tua recente cartinha. Está tudo a correr bem para ti, e isso é o que importa. Por cá, continuamos com um tempo esplêndido, com muito calor. O mar parece um lago e, felizmente para quem cá vive, a praia voltou a poder ver-se. É que durante a época balnear encheram-na com tudo o que lhes passou pela cabeça, inclusive uma grande bancada que ocupou metade da única praia que teve direito a bandeira azul, imagina tu. 
Agora sim, voltamos a ter praia para nos sentarmos e deitarmos e vermos o pôr de sol. Pena é que, lá de vez em quando, aparece uma mancha comprida, castanha. Ninguém sabe donde vem, nem mesmo a minha vizinha D. Viperina, que sabe de tudo. 
A época balnear acabou, mas a pouca vergonha do estacionamento continua. Continuam a estacionar por cima dos passeios, por cima dos degraus da piscina, da farmácia e da estação de caminhos de ferro. Os arruamadores, descarados, facilitam este tipo de estacionamento e até conversam e tentam entreter os polícias que aparecem. Não achas, Alienação, que a América devia seguir este exemplo de sã convivência? 
A chaminé da piscina está podre há anos e tem levado muitos remendos. Agora espirra e vomita um liquido preto que escorre por ela abaixo e borra as paredes e as janelas. Para os vizinhos, está uma vergonha. Mas para um artista que veio cá ser medalhado, está uma obra de arte digna de ser imitada pelas cidades vizinha. A D. Viperina diz que já não percebe nada e está admirada com a distração das autoridades locais, provavelmente ocupadas em projectos mais visíveis e mais badalados. 
A D. Viperina disse-me que a distração é tal que agora até deixam a cisterna de recolha da trampa despejar a porcaria das sarjetas e das fossas na zona da carreira do tiro precisamente a mesma zona que alguns querem ver sem a carreira do tiro porque dizem que os tiros poluem. Também lhe constou que aproveitaram um dia de chuvas fortes para, com a ajuda de um compressor, despejar óleo queimado para uma ribeira. 
A Diana morreu, já foi enterrada e ainda os media de cá continuam a falar bastante dela. Agora parece que há uns idiotas, — idiota é aquele que tem ideias, disse-me a D. Viperina— que querem mudar o nome de um dos aeroportos de Londres para Diana. A D. Viperina riu-se às gargalhadas e disse-me que a mesma graça tinha sido feita em relação ao nome do aeroporto de Pedras Rubras, perto do Porto. Em contraste com a Diana, quase não falaram da Madre Teresa de Calcutá. Mas falaram bastante do carniceiro do Zaire, o tal que deixou um avião a apodrecer no aeroporto de Lisboa mas deixou quintas e palacetes espalhados por tudo quanto é sítio. Imagina que ele era tão bonzinho e tão esperto que, diz a televisão, desviou parte do dinheiro de ajudas internacionais para si. Claro que um homem tão esperto teve muitos amigos em todo o mundo, e, certamente, hão-de mandar fazer estátuas em sua honta, hão de dar o seu nome a um aeroporto, a uma avenida, e hão-de comprar páginas nas enciclopédias para que conste que ele não fez e se omita as barbaridades que cometeu ou mandou cometer. 
Olha, por agora é tudo. Boa saúde, é o que te desejo , e até à próxima. 
Beijos e abraços do Primo que muito te estima, 
Speakeasy

Octávio Lima
Espinho Vareiro, 12 de setembro de 1997