Querida Tia Bizantina,
Espero que se encontre de boa saúde. Por cá está tudo a correr pelo melhor, ainda por cima com um tempo esplêndido, melhor do que muitos dias de Julho e Agosto, e com muito menos confusão de carros e de pessoas aos montes. Agora é que se está bem.
Os negócios estão a correr pelo melhor, há bastante optimismo no ar, as pessoas não pensam duas vezes, de modo que a nossa empresa vai de vento em popa. Claro que a gente do ramo está sempre a dizer que as coisas vão pretas, que a concorrência é desleal, que precisamos de dinheiro da Europa, etecétera e tal, e os governantes, que são muito simpáticos, têm-nos feito uns ricos fretes, abrindo caminho à implantação dos nossos negócios no estrangeiro. Aqui é que se está bem, digo-lhe eu.
Quanto a novidades, há bastantes, curtas e grossas, como uma bruxa cavalona cá do sítio costuma dizer.
Primeiro, o Sporting de Portugal vai contratar um jogador da Austrália para preencher a lacuna deixada pela saída do famoso Sá Pinto. É que do currículo do australiano não fazem parte agressões a seleccionadores nacionais. O tipo é mestre em apertar as goelas aos árbitros que lhe mostram cartão amarelo. E é disso que Octávio Machado, o loquaz treinador dos Leões, precisa urgentemente. Para além disso, ele, o treinador gosta de dizer que faz as coisas em on, não em off.
Segundo, a Dianamania enraizou-se mesmo por cá. Todos os dias se fala dela e da fundação que está a angariar fundos para as caridades que ela tinha começado. Imagine a tia que houve gente que madrugou para tomar conta de lugar em filas para poder comprar o disco que o Elton John fez a partir da reciclagem de uma canção feita em memória de Marilyn Monroe. Não me diga que a Tia também já tem o disco.
E, a propósito, a Tia não acha que os americanos andam a perder muitos aviões tão depressa? É muito estranho, porque enquanto se falou durante tantos anos de guerra fria, de soviéticos e comunistas, nunca houve tantos desastres de aviões militares americanos em tempo de "paz". Agora é uma chatice, porque os americanos já não podem acusar os serviços secretos russos de sabotagem. Vai ser mais difícil sacudir a água do capote.
O ano escolar começou em todo o país, dizem os media à boca cheia. Mas a minha vizinha D. Viperina já me foi dizendo à boca pequena que não é bem assim, porque conhece netos de amigas que ainda andam em exames escritos e orais e que não são assim tão poucos como isso. Diz ela que anda muita gente a viver em ambiente virtual, talvez devido aos efeitos provocados pelas muitas horas passadas em frente da televisão.
Um centro comercial em Lisboa foi também aberto à pressa. Os ministros estavam a entrar por um lado para tirar afotografia e ao lado os trolhas a correr a arrumar a ferramenta e as mulheres de limpeza a varrer e a levantar enormes nuvens de pó.
Mas este clima de febre não fica por aqui. Aqui em Espinho, um esporão consertado há menos de um ano, já está com a ponta meio desfeita porque as pedras que lá puseram foram pequenas e leves para este mar do norte.
E andam alguns a apregoar pela enésima vez a construção de não sei quantas casas para os pobres. Mas a D. Viperina explicou-me que as casas prometidas há quatro anos são sempre as mesmas, no mesmo lugar e tudo. Ela diz que não percebe por que razão é que algumas pessoas hão-de estar sempre a falar. Diz ela que talvez seja por isso que o silêncio é de ouro.
Fico-me por aqui, desejando à Tia a continuação de uma muito boa saúde. Recomende-me aos amigos e vizi nhos. Um abraço.
Speakeasy Jones.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 19 de setembro de 1997