TASCA PIROLITO (90)

Falta de João Pinto para vermelho direto no jogo Portugal vs. Coreia do Sul em 14 de junho de 2002

Querida Tia Bizantina,

Espero que se encontre de boa saúde. Por cá está tudo a correr pelo melhor, ainda por cima com um tempo esplêndido, melhor do que muitos dias de Julho e Agosto, e com muito menos confusão de carros e de pessoas aos montes. Agora é que se está bem.
Os negócios estão a correr pelo melhor, há bastante optimismo no ar, as pessoas não pensam duas vezes, de modo que a nossa empresa vai de vento em popa. Claro que a gente do ramo está sempre a dizer que as coisas vão pretas, que a concorrência é desleal, que precisamos de dinheiro da Europa, etecétera e tal, e os governantes, que são muito simpáticos, têm-nos feito uns ricos fretes, abrindo caminho à implantação dos nossos negócios no estrangeiro. Aqui é que se está bem, digo-lhe eu. 
Quanto a novidades, há bastantes, curtas e grossas, como uma bruxa cavalona cá do sítio costuma dizer.
Primeiro, o Sporting de Portugal vai contratar um jogador da Austrália para preencher a lacuna deixada pela saída do famoso Sá Pinto. É que do currículo do australiano não fazem parte agressões a seleccionadores nacionais. O tipo é mestre em apertar as goelas aos árbitros que lhe mostram cartão amarelo. E é disso que Octávio Machado, o loquaz treinador dos Leões, precisa urgentemente. Para além disso, ele, o treinador gosta de dizer que faz as coisas em on, não em off.
Segundo, a Dianamania enraizou-se mesmo por cá. Todos os dias se fala dela e da fundação que está a angariar fundos para as caridades que ela tinha começado. Imagine a tia que houve gente que madrugou para tomar conta de lugar em filas para poder comprar o disco que o Elton John fez a partir da reciclagem de uma canção feita em memória de Marilyn Monroe. Não me diga que a Tia também já tem o disco. 
E, a propósito, a Tia não acha que os americanos andam a perder muitos aviões tão depressa? É muito estranho, porque enquanto se falou durante tantos anos de guerra fria, de soviéticos e comunistas, nunca houve tantos desastres de aviões militares americanos em tempo de "paz". Agora é uma chatice, porque os americanos já não podem acusar os serviços secretos russos de sabotagem. Vai ser mais difícil sacudir a água do capote. 
O ano escolar começou em todo o país, dizem os media à boca cheia. Mas a minha vizinha D. Viperina já me foi dizendo à boca pequena que não é bem assim, porque conhece netos de amigas que ainda andam em exames escritos e orais e que não são assim tão poucos como isso. Diz ela que anda muita gente a viver em ambiente virtual, talvez devido aos efeitos provocados pelas muitas horas passadas em frente da televisão. 
Um centro comercial em Lisboa foi também aberto à pressa. Os ministros estavam a entrar por um lado para tirar afotografia e ao lado os trolhas a correr a arrumar a ferramenta e as mulheres de limpeza a varrer e a levantar enormes nuvens de pó. 
Mas este clima de febre não fica por aqui. Aqui em Espinho, um esporão consertado há menos de um ano, já está com a ponta meio desfeita porque as pedras que lá puseram foram pequenas e leves para este mar do norte. 
E andam alguns a apregoar pela enésima vez a construção de não sei quantas casas para os pobres. Mas a D. Viperina explicou-me que as casas prometidas há quatro anos são sempre as mesmas, no mesmo lugar e tudo. Ela diz que não percebe por que razão é que algumas pessoas hão-de estar sempre a falar. Diz ela que talvez seja por isso que o silêncio é de ouro. 
Fico-me por aqui, desejando à Tia a continuação de uma muito boa saúde. Recomende-me aos amigos e vizi nhos. Um abraço. 
Speakeasy Jones.

Octávio Lima
Espinho Vareiro, 19 de setembro de 1997