TASCA PIROLITO (8)

Areia há muita

Alameda Maia-Brenha, 28fev2014. OLima/Ambiente Ondas3

As frequentes nortadas há muito eram apontadas como as principais responsáveis pela pulveriação da areia pela cidade e freguesias. Ela entupia o sistema de drenagem dos pluviais na Avenida 24 e, quando chovia, era certo e sabido que as inundações a transformavam num pitoresco canal. Ela fazia encravar os rodízios das portas das garagens e impedia a entrada e saída de carros. Ela obstruía os ouvidos das janelas e as fechaduras provocando esdrúxulas vociferações de proprietários e inquilinos. Ela ousava intrometer-se na sopa dos repastados turistas nas mesas dos restaurantes de alto coturno. A situação tornara-se, nos últimos anos, pura e simplesmente, insuportável. Foi então que, subitamente, Espinho descobriu que tinha areia a mais nas suas praias. 
Vai daí e, em cerimónia especial, em palco inundado por luzes laranja e azul e em acrobático passo de magia, foi solenemente anunciada a alienação de 20.000 m3 de areia da praia. Pretendia-se, segundo as peregrinas inteligências, alargar o passeio da beira-mar em 40 metros a poente da Piscina, entre as ruas 13 e 9. Resolvia-se o problema a contento de todos. *
Primeiro, com o beneplácito da Secretaria de Estado do Turismo, a areia seria exportada para a Dinamarca, muito necessitada especialmente depois do não a Maastricht. O produto da venda revertiria a favor da execução de uma série de projectos das contrapartidas do jogo, paralisados devido ao buraco orçamental da Câmara. Segundo, a maldita areia não mais faria mal a ninguém. Não mais haveira inundações na Avenida 24, não mais haveria portas e janelas encravadas ou entupidas, não mais os turistas se arrepiariam ao triturar um grão de areia. E, finalmente, com menos areia, seria possível ver melhor.
Speakeasy Jorres

Octávio Lima
Espinho Vareiro, 17 de julho de 1992